O Departamento de Matemática emitiu um nota. Para acessá-la por favor clicar aqui.


O professor Wilhelm Alexander Cardoso Steinmetz do Departamento de Matemática participou da Nota Técnica assinada por nove pesquisadores em 27/05/2020 de várias instituições alertando para um possível novo aumento descontrolado de infecções por COVID-19 em Manaus a partir de junho 2020. A nota pode ser encontrada aqui.


A Fundação de Amparo à Pesquisa (FAPEAM) solicitou à UFAM uma modelagem matemática da curva epidemiológica da COVID-19 em Manaus. O relatório técnico foi publicado em 18/05/2020 e pode ser encontrado aqui.


O distanciamento social não é causa da crise econômica, mas, pelo contrário, pode até ser um remédio

COVID-19 e o papel da ciência e tecnologia no Brasil

Cenários para a propagação da COVID-19 em Manaus


O distanciamento social não é causa da crise econômica, mas, pelo contrário, pode até ser um remédio

Atualmente, o número de casos confirmados de COVID-19 está em pleno crescimento no Brasil. O número de óbitos oficiais de COVID-19 supera a marca de 50.000, mas dado o número reduzido de testes efetuados, o número real de óbitos tendo essa doença como causa deve ser bem maior. No atual estágio da pandemia no país, o distanciamento social rigoroso é a única resposta eficaz para mitigar a perda de vidas humanas. Isso é um consenso esmagador na comunidade científica, comparável com aquele da ocorrência do aquecimento global ou da evolução de espécies por seleção natural.

A vida humana é o que a nossa sociedade moderna mais preza. Para ilustrar isso, lembramos que em 2012, em uma mina no Chile, a 700 metros de profundidade 33 mineiros ficaram presos. A mobilização para salvar essas vidas foi enorme, custou em torno de 20 milhões de dólares e o mundo inteiro se emocionou e aplaudiu quando esses mineiros saíram todos da mina com vida. Em 2018 tivemos um acontecimento parecido com uma equipe de futebol de meninos tailandeses com o seu treinador. Esses eventos ilustram quanto a nossa sociedade é disposta a investir em termos de dinheiro e tempo para salvar vidas, se existe um caminho. E para salvar vidas da COVID-19 conhecemos um tal caminho: o distanciamento social rigoroso.

Infelizmente, existe uma concepção equivocada de que a imposição do distanciamento social por parte de governantes é causa da atual crise econômica ou razão pelo seu agravamento. É verdade que possibilitar o cumprimento de medidas de distanciamento social rigorosas por toda a população, em uma sociedade tão desigual como a brasileira, exige esforços econômicos por parte da sociedade e políticas específicas de gestores públicos. Há uma parcela da população que simplesmente não consegue ficar em casa em quarentena sem uma ajuda financeira por parte do governo. Mas mesmo assim, evidências apontam que medidas de distanciamento social não são a causa da crise econômica, mas, pelo contrário, talvez possam até ajudar a amenizá-la.

Para entender isso, consideremos o seguinte. Em tempos normais, uma simples preocupação na população sobre o futuro econômico pode se traduzir em uma queda nos índices de confiança do consumidor, levando a efeitos negativos sobre a economia. Imaginamos então o efeito de uma pandemia nesses índices. Com um vírus respiratório em circulação, um vírus que se mostra capaz de lotar hospitais, naturalmente pessoas vão sair menos para restaurantes, bares e cinemas e vão viajar menos etc. – com, ou sem, a imposição de um distanciamento social rigoroso por parte de governantes. De fato, a própria pandemia já possui um efeito extremamente prejudicial na economia.

Ademais, um estudo recente do Massachussetts Institute of Technology (MIT) analisou as respostas de diferentes cidades dos EUA à pandemia da gripe espanhola, que assolou o mundo entre 1918 e 1920. O estudo mostra que cidades que aplicaram medidas importantes de distanciamento social tendiam a sair mais cedo da crise econômica provocada pela pandemia e tiveram menos perdas econômicas. Desta forma, vemos que a própria pandemia é a causa da crise econômica e o distanciamento social pode, na verdade, até ser um remédio. Mesmo assim, a visão equivocada de que a imposição de medidas de distanciamento social é a causa das dificuldades econômicas atuais é muito difundida.

Surge, porém, a pergunta se não existe um remédio mais eficaz do que o distanciamento social rigoroso. Um remédio que salve vidas e combata com mais eficácia a crise econômica causada por essa pandemia. Infelizmente, no atual estágio da pandemia no país não há outro remédio, mas em um ponto anterior da pandemia tínhamos outros caminhos disponíveis. Diz-se que problemas na vida se resolvem muitas vezes de duas maneiras distintas: ou com força bruta ou com inteligência. É muito parecido com a crise gerada por essa pandemia. A solução de força bruta é a do distanciamento social e a solução inteligente seria uma baseada em ciência e tecnologia: por exemplo, com um programa de testagem em larga escala na população, implementado ainda nos estágios iniciais da pandemia. Outros países que fizeram isso, como a Alemanha, a Coreia do Sul e a Islândia, estão em uma posição bem melhor agora do que o nosso país. Contudo, uma tal testagem em larga escala não foi implementada no Brasil - principalmente por falta de preparo tecnológico e científico.

Nos Estados Unidos, o Conselho de Segurança Nacional (National Security Council) possui um “escritório de preparação para pandemias” (pandemic preparedness office) que é responsável para elaborar planos de ações em caso de pandemias e simulações para possíveis cenários de propagação. A resposta à pandemia nos Estados Unidos foi lenta e inicialmente inadequada, mas havia planos de ação para o caso de uma pandemia naquele país. Por outro lado, no Brasil, não há uma tal agência ou escritório e nem existiam tais planos. Isso prejudica com certeza a eficácia da resposta do Brasil a essa pandemia. No mais, foi sugerido repetidamente que o Brasil implementasse um programa de testagem por COVID-19 em larga escala, porém isso seria muito difícil de executar, pois os reagentes necessários estão atualmente em alta demanda mundo afora e o país não tem capacidade de fabricar esses reagentes em quantidade suficiente. Em grande parte, isso é devido à falta de investimento público e privado na ciência e tecnologia no Brasil nos últimos anos - o que parece bastante chocante, considerando que a pandemia não foi só um evento previsível, mas de fato previsto: em setembro 2019, um grupo de especialistas da OMS, chamado Global Preparedness Monitoring Board, alertou para o risco de uma pandemia por um novo coronavírus, recomendando ação urgente por parte de governos. Em consequência da falta de preparo tecnológico e científico, o Brasil precisa agora tomar um remédio bem amargo: o isolamento social e a quarentena.

Fica assim claro que a pandemia é causa, ao mesmo tempo, de uma crise de saúde pública e econômica e que o único remédio do qual dispomos atualmente no Brasil é o distanciamento social rigoroso. A implementação eficaz desse distanciamento é o verdadeiro desafio que se coloca para gestores públicos no Brasil nesse momento. O caminho oposto, o da saída do distanciamento social, não parece ser uma escolha racional à luz das evidências históricas - nem do ponto de vista humano, nem do econômico. Para o futuro, fica a esperança de que, para uma próxima crise dessa envergadura, que inevitavelmente que chegará nas próximas décadas, o Brasil disponha de um preparo científico e tecnológico melhor.

Manaus, 26/06/2020

Wilhelm Alexander Cardoso Steinmetz


COVID-19 e o papel da ciência e tecnologia no Brasil

O Brasil vive uma crise grave com a pandemia da COVID-19, apesar de ter sido um dos últimos grandes países a ser atingido. Alguns países, que estão navegando melhor a crise da COVID-19, são aqueles que implementaram programas de testagem em larga escala, como Coreia, Islândia e Alemanha. Ademais, Coreia e países como Taiwan e Hong-Kong sofreram nos últimos anos com a SARS ou MERS (outras doenças provocadas por um coronavírus). Esses países conseguiram também lidar melhor com a crise da COVID-19, tendo feito um trabalho preventivo em consequência das experiências essas outras epidemias. Parece que ciência, tecnologia e trabalho preventivo foram pontos importantes na receita de sucesso de alguns países. Nessas três áreas o Brasil porém não parece estar à altura do desafio.

O Conselho de Segurança Nacional dos Estados Unidos (National Security Council) possui um “escritório de preparação para pandemias” (pandemic preparedness office) que é responsável para elaborar planos de ações em caso de pandemias e simulações para possíveis cenários de propagação [1]. Esse escritório tinha uma equipe de centenas de membros, mas por razões políticas essa equipe foi restruturada em 2018 pela administração Trump, deixando o país menos preparado para a crise da COVID-19 [2]. Mesmo assim, havia planos de ação para o caso de uma pandemia nos Estados Unidos, que não foram implementados corretamente esse ano por falta de liderança política.

Entretanto, no Brasil não há uma tal agência ou escritório e nem existiam tais planos. No mais, se o Brasil quisesse implantar um programa de testes em larga escala na população, seria muito difícil nesse momento, pois os reagentes necessários estão atualmente em alta demanda mundo afora e o país não tem capacidade de fabricar esses reagentes em quantidade suficiente [3] – isso é em grande parte devido à falta de investimento público e privado na ciência e tecnologia no Brasil. Por outro lado, os Estados Unidos, apesar da resposta incialmente muito lenta e inadequada à pandemia, possuem um preparo tecnológico melhor, tendo capacidade de produzir testes em larga escala para executar um esquema de testagem em massa [4].

O despreparo e a falta de trabalho preventivo do Brasil frente a essa pandemia é ainda mais chocante, visto que se trata não só de um evento previsível, mas de fato previsto: em setembro 2019, um grupo de especialistas da OMS, chamado Global Preparedness Monitoring Board, alertou para o risco de uma pandemia por um novo coronavírus, recomendando ação urgente por parte de governos [5]. A falta de preparo tecnológico e científico está forçando o Brasil a seguir o caminho mais doloroso com um alto custo socioeconômico: o isolamento social e a quarentena.

O quanto a ciência é ligada à soberania nacional e, em consequência, à proteção e ao bem-estar dos seus cidadãos, os Estados Unidos, a Rússia e os países da Europa sentiram na pele na segunda guerra mundial (apesar da ciência ter obviamente criado também monstros como a bomba atômica): basta lembrar como o radar ajudou a avisar a população britânica da chegada dos bombardeios alemães, salvando milhares de vidas. Na época pós-guerra os investimentos públicos na ciência cresceram muito e apenas com a lembrança de uma guerra devastadora distante, esses investimentos começaram a diminuir através das décadas [6].

O Brasil não acompanhou esse movimento, provavelmente porque a transição de um país agrícola para um país industrial foi recente naquela época. A primeira universidade brasileira foi a Universidade Federal do Amazonas fundada em 1909. A Universidade de São Paulo, uma das mais bem-conceituadas do país, foi fundada em 1934. Pesquisa científica de alto nível é essencialmente um fenômeno recente no Brasil, tanto que a imagem do “cientista e pesquisador brasileiro de alto nível” ainda não faz parte do imaginário coletivo. Para muitas pessoas, ciência de alto nível ainda é algo que é feita “lá fora”, em outros países, mas não aqui. Porém, isso não corresponde mais à realidade - ciência e tecnologia de alto nível está sendo produzida no Brasil.

Por fim, pandemias não são o único risco global. Falhas na colheita em larga escala, aquecimento global [7] e perda de biodiversidade [8] (há vários insetos que estão ameaçados de extinção, os mais famosos sendo as abelhas [9]) são todos riscos relativamente previsíveis que podem se beneficiar de um trabalho científico de prevenção, possibilitando a tomada de decisão célere e eficaz nos mais altos escalões do governo no momento de uma crise. Espero que essa pandemia da COVID-19 sirva de catalisador para uma política pública baseada em ciência e tecnologia nacional que faça com que o país esteja mais preparado para a próxima crise, que com certeza chegará nas seguintes décadas.

Manaus, 15/06/2020

Wilhelm Alexander Cardoso Steinmetz

[1] https://www.hhs.gov/about/agencies/oga/about-oga/what-we-do/policy-and-program-coordination/pandemics-emerging-threats.html

[2] https://www.msnbc.com/rachel-maddow-show/trump-struggles-explain-why-he-disbanded-his-global-health-team-n1153221

[3] https://www.dw.com/pt-br/por-que-o-brasil-testa-t%C3%A3o-pouco-para-covid-19/a-53222194

[4] https://www.technologyreview.com/2020/04/28/1000671/covid-tests-millions-per-day-crispr-biotechnology-advances/

[5] https://www.newsweek.com/coronavirus-predicted-report-pandemic-1494004

[6] https://equitablegrowth.org/public-investment-is-crucial-to-strengthening-u-s-economic-growth-and-tackling-inequality/

[7] https://reports.weforum.org/global-risks-2016/climate-change-and-risks-to-food-security/

[8] https://www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S0016718512000796#:~:text=In%20their%20estimations%2C%20biodiversity%20loss,slightly%20more%20likely%20to%20occur.

[9] https://www.nationalgeographic.com/animals/2020/02/bumblebees-going-extinct-climate-change-pesticides/


Cenários para a propagação da COVID-19 em Manaus

Referente à epidemia da COVID-19 que apresenta atualmente uma preocupação importante para a saúde pública no município de Manaus, como em todo o Brasil, elaboramos um estudo que traz algumas projeções a curto prazo para a evolução do número de casos da doença no município de Manaus. O estudo foi baseado em uma modelagem de compartimentos SIQR. Para acessar esse estudo por favor clique aqui.* As conclusões principais do nosso estudo são as seguintes:

1) Em um cenário sem quaisquer medidas de contenção, as nossas projeções apontam para uma quantidade acima de 50.000 casos, podendo essa marca ser ultrapassada antes do fim do mês de abril.

2) Ao aumentar o grau de distânciamento social, a ocorrência deste número de casos pode ser gradualmente adiado até o início do mês de junho. Somente com a viabilização de um cenário de distanciamento social rigoroso, implementado e observado a partir do dia 23 de março de 2020, teríamos um número de casos abaixo de 50.000 na primeira quinzena do mês de junho.

3) Ressaltamos ainda que, um aumento no número testes ou um aumento na consciência coletiva da população quanto à importância de medidas de isolamento rigoroso (sobretudo a qualquer suspeita da doença), iniciada tardiamente, pode não causar o mesmo impacto significativo aguardado, considerando o atual estágio epidêmico no município de Manaus. Porém há indicações que tais medidas poderiam ter um impacto melhor em um estágio anterior desta epidemia.

Manaus, 06/04/2020

Wilhelm Alexander Cardoso Steinmetz e Sandro Bitar

*OBS: Algumas tabelas e alguns gráficos foram melhorados e algumas explicações aprimoradas para fins de clareza. A versão do estudo que esteve disponível anteriormente pode ser acessado aqui..